Vozes da ruas: as revoltas de junho e suas interpretações
Síntese da coletânea "As vozes das ruas"
Por Welliton Resende
Raquel Rolnik
As revoltas de junho decorreram de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos.
Para Ruy Braga: "a questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira".
Carlos Vainer: "Uma fagulha pode incendiar uma pradaria" e, no nosso caso, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento das tarifas dos transportes públicos convocada pelo MPL."
O MPL também reivindicou o direito à cidade, ou seja, uma circulação livre e irrestrita é um componente essencial desse direito que as catracas bloqueiam.
Érmínia Mariato: "Os capitais se assanham na pilhagem dos fundos públicos deixando inúmeros elefantes brancos para trás". Nos dizeres de uma placa "Quando meu filho ficar doente vou levá-lo ao estádio".
Em verdade, houve uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e renda e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/Olimpíadas é a expressão mais recente... e radical.
Silvia Viana: "Existe nas manifestações uma clivagem entre pacíficos e baderneiros".
MPL
As vozes das ruas foram erguidas contra os sucessivos aumentos das passagens e são expressão da digna raiva contra um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria em um processo em que a população é sempre objeto em vez de sujeito.
As revoltas de junho de 2013, desencadeadas pela luta organizada pelo MPL-SP contra o aumento das tarifas, não são algo inteiramente novo o primeiro movimento contra o aumento das passagens foi realizado em 2003 na cidade de Salvador (revolta do buzu) e em 2004 em Florianópolis (revolta da catraca).
Ermínia Maricato
A cidade é ignorada pela esquerda que não consegue ver ali a luta de classes e por uma direita que aposta tudo na especulação imobiliária e no assalto ao orçamento público.
A cidade constituiu um grande patrimônio construído histórica e socialmente, mas sua apropriação é desigual em nome do negócio renda imobiliária ou localização, pois ela tem um preço devido aos seus atributos.
O Brasil vinha há 40 anos num crescimento acima de 7% ao ano. As migalhas desse banquete atraíram migrantes que incharam as regiões metropolitanas. Com a chegada da crise no anos 80, o país amargou baixo crescimento, alto desemprego e recuo das políticas públicas. Tudo isso fez com que a violência explodisse e a taxa aumentou em 259% entre 1980 e 2010.
A globalização reduziu o país a um mero exportador de commodities (grãos, carnes, celulose, etanol, minérios) e reorientou os fluxos demográficos para o interior. Isso gerou conflitos agrários, desmatamento, poluição.
Contribuíram para a revolta os despejos violentos e os gastos com megaeventos (copa/olimpíada). A desoneração dos automóveis aumentou o número de carros na cidades e acarretou no abandono do transporte público pelo estado que passou a investir no transporte individual e construiu pontes, viadutos, avenidas.
David Harvey
Park: "Ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo".
A globalização e a guinada em direção ao neoliberalismo enfatizaram, ao invés de diminuir, as desigualdades. O poder de classe foi restaurado às elites ricas.
As chamadas cidades "globais" do capitalismo avançado são divididas socialmente entre as elites financeiras e as grandes porções de trabalhadores de baixa renda, que por sua vez se fundem aos marginalizados e desempregados. Tais desenvolvimentos urbanos desiguais traçam o cenário para o conflito social.
Carlos Vainer
O paradoxo de uma sociedade urbana que, nos últimos dez a vinte anos, viu os movimentos sociais rurais dominarem as pautas dos movimentos populares.
Não há como não reconhecer a conexão estreita entre os protestos em curso e o contexto propiciado pelos investimentos maciços nos megaeventos. A mídia e o governo tratou de reprimir brutalmente o movimento com a ideia de que isso "mancharia a imagem do país".
Mauro Iasi
Engels: "A cidade é a expressão das relações sociais de produção capitalista, sua materialização política e estatal que está na base da produção e reprodução do capital".
A vida que pulsava transbordou, e o dique da ideologia não foi capaz de contê-la. Foi a reconstrução da narrativa.
Por Welliton Resende
Raquel Rolnik
As revoltas de junho decorreram de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos.
Para Ruy Braga: "a questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira".
Carlos Vainer: "Uma fagulha pode incendiar uma pradaria" e, no nosso caso, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento das tarifas dos transportes públicos convocada pelo MPL."
O MPL também reivindicou o direito à cidade, ou seja, uma circulação livre e irrestrita é um componente essencial desse direito que as catracas bloqueiam.

Em verdade, houve uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e renda e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/Olimpíadas é a expressão mais recente... e radical.
Silvia Viana: "Existe nas manifestações uma clivagem entre pacíficos e baderneiros".
MPL
As vozes das ruas foram erguidas contra os sucessivos aumentos das passagens e são expressão da digna raiva contra um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria em um processo em que a população é sempre objeto em vez de sujeito.
As revoltas de junho de 2013, desencadeadas pela luta organizada pelo MPL-SP contra o aumento das tarifas, não são algo inteiramente novo o primeiro movimento contra o aumento das passagens foi realizado em 2003 na cidade de Salvador (revolta do buzu) e em 2004 em Florianópolis (revolta da catraca).
Ermínia Maricato
A cidade é ignorada pela esquerda que não consegue ver ali a luta de classes e por uma direita que aposta tudo na especulação imobiliária e no assalto ao orçamento público.
A cidade constituiu um grande patrimônio construído histórica e socialmente, mas sua apropriação é desigual em nome do negócio renda imobiliária ou localização, pois ela tem um preço devido aos seus atributos.
O Brasil vinha há 40 anos num crescimento acima de 7% ao ano. As migalhas desse banquete atraíram migrantes que incharam as regiões metropolitanas. Com a chegada da crise no anos 80, o país amargou baixo crescimento, alto desemprego e recuo das políticas públicas. Tudo isso fez com que a violência explodisse e a taxa aumentou em 259% entre 1980 e 2010.
A globalização reduziu o país a um mero exportador de commodities (grãos, carnes, celulose, etanol, minérios) e reorientou os fluxos demográficos para o interior. Isso gerou conflitos agrários, desmatamento, poluição.
Contribuíram para a revolta os despejos violentos e os gastos com megaeventos (copa/olimpíada). A desoneração dos automóveis aumentou o número de carros na cidades e acarretou no abandono do transporte público pelo estado que passou a investir no transporte individual e construiu pontes, viadutos, avenidas.
David Harvey
Park: "Ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo".
A globalização e a guinada em direção ao neoliberalismo enfatizaram, ao invés de diminuir, as desigualdades. O poder de classe foi restaurado às elites ricas.
As chamadas cidades "globais" do capitalismo avançado são divididas socialmente entre as elites financeiras e as grandes porções de trabalhadores de baixa renda, que por sua vez se fundem aos marginalizados e desempregados. Tais desenvolvimentos urbanos desiguais traçam o cenário para o conflito social.
Carlos Vainer
O paradoxo de uma sociedade urbana que, nos últimos dez a vinte anos, viu os movimentos sociais rurais dominarem as pautas dos movimentos populares.
Não há como não reconhecer a conexão estreita entre os protestos em curso e o contexto propiciado pelos investimentos maciços nos megaeventos. A mídia e o governo tratou de reprimir brutalmente o movimento com a ideia de que isso "mancharia a imagem do país".
Mauro Iasi
Engels: "A cidade é a expressão das relações sociais de produção capitalista, sua materialização política e estatal que está na base da produção e reprodução do capital".
A vida que pulsava transbordou, e o dique da ideologia não foi capaz de contê-la. Foi a reconstrução da narrativa.
2017: que seja + poético:
ResponderExcluiragora 2016 terminando:
UM MOMENTO, APENAS UM!, SUI GENERIS. EIS:
Em 2016 houve fato fabuloso sim, apesar de Vanessa Grazziotin falar que não, dessa forma assim:
"O ano de 2016 é, sem dúvida, daqueles que dificilmente será esquecido. Ficará marcado na história pelos acontecimentos negativos ocorridos no Brasil e no mundo. Esse é o sentimento das pessoas", diz Grazziotin.
Mas, por outro lado, nem que seja apenas 1 fato positivo houve sim! É claro! Mesmo que seja, somente e só, um ato notável, de êxito. Extraordinário. Onde a sociedade se mostrou. Divino. Que ficará na história para sempre, para o início de um horizonte progressista do Brasil, na vida cultural, na artística, na esfera política, e na econômica.
Que jamais será esquecido tal nascer dos anos a partir de 2016, apontando para frente. Ano em orientação à alta-cultura. Acontecimento esse verdadeiramente um marco histórico prodigioso. Tal ação acorrida em 2016 ocasionou o triunfo sobre a incompetência. Incrementando sim o Brasil em direção a modernidade, a reformas e mudanças positivas e progressistas. Enfim: admirável.
Qual foi, afinal, essa ação sui-generis?
Tal fato luminoso foi o:
-- «Tchau querida!»
[O "Coração Valente", de João Santana"].
Eis aí um momento progressista, no ano de 2016. Sem PeTê.
Feliz 2017.